LIBERTAD

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Alienação é a rotina do trabalho
O trabalho é a rotina do peão
Explorar é a rotina do patrão
Em casa a rotina é acordar cedo
Nas ruas a rotina é o medo.


Rua segunda lar
eu te quero assunto de poetas
de amantes
e de povos rebelados 
Te quero dos que te construíram e que hoje não te podem desfrutar
Porque foram descartados porque foram despejados 
Toda a ocupação que resiste no centro da cidade
tem um pouco de quilombo 
Ameaça o latifundio urbano
Monocultura cinza movida a petróleo e suor
O suor de quem vêm nos trens lotados
Todo busão que vêm cheio das quebradas,que vem cheio de catracas
tem um pouco de navio negreiro 
Transporte desumano da carne humana
Pra ser moída e desossada no trabalho
Rua você é de todas
Que fora do trabalho são suspeitas
De roubar,de depredar,de discordar
Ou de não contribuir do Produto Interno Bruto
Que veste um capuz e extermina na favela é um pouco do capitão do mato
Rua 
Te quero das mulheres ensinadas desdo do cedo que só podem brincar dentro de casa
porque a rua é perigosa,porque a rua é violenta
Rua eu te conheço,quem te faz ameaça ás meninas e mulheres
Mais que as ruas
A rua é de todos os amores
É daqueles que tiveram que ocupa-la 
pelo direito de existir 
Todo discurso moralista que se opõem a igualdade
Que se põem autonomia sobre o corpo
É um pouco do tribunal da inquisição 
A rua não comporta privilégios 
Não tem dono,não tem preço
É como o vento,o sol e a chuva
o calor,as nuvens e cores
minha alegria e minhas dores
Por isso hoje eu vim pra rua
Ocupamos a rua para devolver o que é dela de direito 
O lugar da assembléia mais legítima 
Nos chamavam de loucos como os balaios que encarava o poder de peito aberto
em um país construído sobre o corpos,assentado sobre o sangue
Dos explorados 
Nos chamavam criminosos e vândalos como chamam violento ao rio que tudo arrasta
Mas não a margem que o oprimem 
Criminosos também eram chamados os Iluditas 
Panteras negras,zapatistas,feministas
Milicianos da Espanha,guerrilheiros da América Latina
Insurretos de Istambul,do Cairo e de Atenas
de Buenos Aires,Paris e Chochabamba 
de Pequim,de Porto Principe e de Gaza
de Londres,do Soweto e de Lisboa
Trabalhadores anarquistas da Itália ou de São Paulo 
Comunistas guerrilheiros urbanos
Quilombolas da Jamaica ou da Bahia
Rebeldes ou poetas de todas as periferias
Loucos,criminosos e estudantes 
Nos querem dentro de hospicio,de cadeias,de escolas
Longe das ruas
Querem as grades,os muros,as cercas e as catracas
Uma cidade em que circulam carros,mas onde as pessoas
São confinadas
Jornalistas,doutores,políticos não podem entender
Que democracia é muito mais do que apertar um botão de vez em quando
Que estamos dispostos a fazer história mesmo nas piores condições
Que não temos ilusões,que não vivemos de fantasias 
Somos aqueles que se movem 
E por isso sentimentos o peso nas correntes que nos prendem 
Eles podem mais não querem entender
Que já sabemos que o estado e o capital são gêmeos siameses
Vivem brigando,mas partilham o mesmo sangue o mesmo coração 
Nasceram juntos e juntos vão morrer pelas mãos do explorados
Que já sabemos que o estado de exceção em que vivemos 
É na verdade regra geral
Que essa paz que oferece não é nada além de medo
Que no passado este medo não haverá quem defenda suas mansões 
E não vai faltar quem abra as portas pelo lado de dentro
Que em tempo de desordem sangrenta e confusão organizada
Nada nos parece impossível de mudar
Que agora as mentiras da tv são motivos de piada
Nada que venha acontecer vai tirar de nós o sentimento
de ter tomado o céu de assalto 
que a vida surgiu em uma nuvem de gás lacrimogênio 
Arrancamos a política 
Dicamos nossas palavras a todos que morreram lutando
hoje,ontem ou no passado contra a ditadura militar
presente Marrighella
e a todas as vítimas anônimas do Estado 
Na rua nenhum monumento é inocente 
Os mortos não estaram em segurança se o inimigo vencer
Combatemos para que não morram na morte do esquecimento!